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Carta para uma mãe: Sobre acompanhar alguém em sua última jornada

  • Foto do escritor: Maria Eduarda Mesquita
    Maria Eduarda Mesquita
  • há 8 horas
  • 2 min de leitura

Querida mãe,


As últimas semanas foram difíceis, talvez impossíveis, e seria uma falácia dizer que eu entendo o que você sentiu. Antes mesmo de nascer uma criança, já nascem os sonhos, se escuta a famosa frase “só espero que venha com saúde!”. E quando a criança tão aguardada e amada não vem com a saúde que sonhamos? E quando nos deparamos com um sofrimento que nunca foi imaginado? Como lidar com os pensamentos de tudo que poderia ser e não foi?


Com amor. Um amor de mãe que não está condicionado a nada, nem mesmo aos seus sonhos e expectativas. Um amor que não exige nada em troca e por isso recebe tudo. Com você, querida mãe, e com tantas outras mães de crianças crônicas complexas que tive o privilégio de conhecer, eu aprendi sobre amor.


Eu já ouvi muito sobre como deve ser difícil e sofrido trabalhar com crianças com doenças crônicas e deficiências. Mas no início da minha graduação, ao conhecer a obra de Cicely Sauders, eu ouvi que “o sofrimento só é intolerável quando ninguém cuida”. E assim eu descobri que trabalhar com crianças tão complexas não é um sofrimento pra mim, porque eu posso cuidar. E eu lhes agradeço, querida mãe e querida criança, por vocês me ensinaram a cuidar melhor. E eu espero que nos nossos poucos encontros, eu tenha ajudado a tornar esse sofrimento mais tolerável com meu cuidado, com meu carinho. Muitas vezes eu não pude te dar as respostas que você gostaria de ouvir ou curar a dor que eu via em seus olhos preocupados. Mas eu espero ter te dado um pouco de conforto nas nossas conversas.


Uma amiga judia me falou uma vez que a maior das Mitzvah (os mandamentos da Torá) era “acompanhar alguém em sua última jornada”, um ato de amor completamente gratuito porque essa pessoa não estará mais entre nós pra retribuir. Eu espero que meu cuidado durante a jornada do seu filho tenha sido esse ato de amor que torna o caminho mais suave e que se não pode curar, conforta. Nesses momentos, eu penso que de certa forma é um privilégio poder ajudar a proporcionar uma última jornada tranquila, sem dor e em paz.


Em todos os nossos encontros, eu te perguntava se eu podia fazer algo pra ajudar seu filho e também a você. E em vários deles, você apenas me pedia orações. Ser médica é sobre um cuidado que vai além dos remédios. É sobre o momento de silêncio fazendo carinho no cabelo do seu filho, olhando pra ele e olhando nos seus seus olhos. E como alguém que fez parte dessa última jornada, eu lhe garanto que sigo cumprindo o que você me pediu: eu rezo por ele e por você.


Descanse em paz, querida criança. E que essa jornada sem dor, com todo conforto que esteve ao nosso alcance proporcionar, lhe ajude a encontrar paz em seu coração, querida mãe.

 
 
 

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