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Sobre a margem, o pertencimento e o sentido de comemorar

  • Foto do escritor: Maria Eduarda Mesquita
    Maria Eduarda Mesquita
  • 1 de jan.
  • 3 min de leitura


Comemorar, segundo o dicionário, significa "trazer a lembrança, recordar, memorar". Talvez por isso as comemorações de Ano Novo sejam sempre tão nostálgicas: estão imbuídas semanticamente da tarefa de lembrar dos feitos, recordar o que foi dito e guardar na memória aquilo que foi visto. Brincando com as palavras e mergulhando na metalinguagem, talvez o própria comemoração deva ser, em si mesma, um ato memorável que deve ser recordado.


Nesse ano novo, eu comemorei a liberdade de me sentir a vontade, confortável no meu lar, virando o ano com uma camiseta de algodão, um short jeans antigo e descalça. Eu lembrei que posso sair da sala e ficar sozinha um tempo pra me regular se o barulho do mundo estiver me sobrecarregando em sua euforia, e não vou ser julgada ou questionada por isso - apenas acolhida. Eu recordei como é bom poder recusar alguma comida sem ter que explicar sobre seletividade alimentar e sem ver aquele olhar atravessado que traduz um pensamento "é frescura".


Querido leitor desconhecido, acredito que já citei outras vezes a metáfora que ouvi uma vez numa palestra: "Diversidade é chamar para a festa, inclusão é convidar para dançar e equidade é garantir que todos terão condições de participar da dança. Mas pertencimento (representado academicamente como social accountability) é quando você participa da organização da festa, porque você de fato faz parte do grupo. E neste ano novo, eu pertenci, e quero comemorar a isso.


Havia comidas que eu gosto (e um bolo de limão sem lactose!) porque eu ajudei a organizar e os demais levavam minhas opiniões e gostos em consideração. A playlist era colaborativa, então todos compartilharam suas músicas - por mais estranhas que fossem. Equidade é garantir que todos possam participar da dança, mas talvez ainda mais profundo é incluir aqueles que não querem dançar. Enquanto os meninos jogavam, eu fiquei na ponta da mesa - à margem do tabuleiro.


Eu me peguei pensando em quantas vezes eu estive nessa posição, à margem da mesa, tentando fazer parte daquela interação, sem sucesso, ou conseguindo participar com base no masking para desempenhar como esperado - olhar nos olhos ou vão achar que não estou prestando atenção; usar a entonação e expressão facial correr pra não acharem que estou mentindo. Tentar me concentrar mesmo quando minha mente exausta não está conseguindo decifrar o que estou ouvindo, para não aparentar falta de respeito, atenção e consideração.


Mas dessa vez, eu pensei o quanto a margem pode ser um local confortável. Eu quero recordar como eu pude ter conversas profundas olhando para o chão ou para o meu livro de colorir, sem ninguém sequer pensar que eu não estava dando a devida atenção. Eu quero memorar como eu fiquei desenhando e pintando até o dia amanhecer, acompanhando as conversas, perguntando o que queria dizer as piadas que não entendi, ficando em silêncio se algum tópico não me interessasse e sem precisar desempenhar expressões não verbais "corretas" para que dessem o devido crédito para minhas palavras.


Meu querido leitor desconhecido, eu quero guardar esse ano novo como uma memória que deve em si, ser comemorada. Porque nesse ano novo, eu descobri que à margem da mesa pode ser o local de maior pertencimento, no qual minha mente, confortável, não precisou fugir para a lua. Quando terminei o desenho, questionaram o fato de que eu não apareço nele, mas eu lhes digo: comemorem, porque talvez eu nunca estive tão presente quanto nessa imagem.

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