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Sobre dipirona, café com leite e cuidados paliativos

  • Foto do escritor: Maria Eduarda Mesquita
    Maria Eduarda Mesquita
  • há 11 horas
  • 3 min de leitura

Carta ao meu primeiro paciente,


Talvez eu possa dizer que o senhor foi o primeiro paciente que me escolheu como médica, na época que ser chamada de “doutora Eduarda” ainda me causava uma sensação de nervosismo. Eu me lembro que o senhor teve Chikungunya e estava sofrendo com as dores articulares, mesmo depois de passar por um médico. Então eu lhe ouvi, fiz algumas orientações, retirei um remédio que estava fazendo mal ao seu estômago e lhe passei dipirona com horário fixo por alguns dias. E sua dor passou. E depois disso, o senhor sempre perguntava pra filha “mas você falou com dra. Eduarda? Ela acha que é pra eu tomar esse remédio mesmo?”.


No começo, eu não entendia bem porque eu mereci tamanha confiança e gratidão por uma simples dipirona. Mas depois, compreendi que não era apenas uma dipirona. Era sobre a atenção de ouvir, a preocupação em saber se melhorou, a sensação de estar sendo cuidado. E sobre aliviar a dor. Durante alguns poucos anos depois, acompanhei de longe seus problemas cardíacos, renais e por fim, o câncer. Traduzi o “mediquês” depois de consultas difíceis de entender e laudos escritos com palavras que pareciam outro idioma.


E durante todo esse tempo, minha preocupação era a mesma daquela primeira dipirona: aliviar a dor. Novas palavras foram traduzidas do “mediquês” - linfonodos, metástase, ascite - palavras que carregavam um peso maior, que eu tinha dificuldade de transmitir nas ligações, mas fazia o meu melhor. Conversas complexas para explicar que as vezes intervir menos é cuidar mais. A dipirona se tornou codeína, tramadol, morfina. Em algum momento, expliquei para sua filha que Cuidado Paliativo vem do latim pallium, que é o manto que protegia os soldados romanos durante as batalhas. E paliar, então, significa “proteger”. Durante todo esse tempo, espero ter ajudado a lhe dar conforto e alívio, lhe protegendo com esse manto.


Durante todo esse tempo, mesmo longe geograficamente, espero ter ajudado a preparar o caminho da sua última jornada aqui, me preocupando em aliviar sua a dor, mas não só a sua. Para que o senhor percorresse seu caminho em paz, eu tentei, dentro das minhas limitações, preparar também a sua família, especialmente sua filha. Sua filha não estava ao seu lado nesse momento, mas algo em meu íntimo me faz ter certeza de que era assim que o senhor desejava que fosse. Algo em meu íntimo diz que o senhor, que sempre relutava em admitir que estava com algum desconforto e sempre queria se mostrar bem para todos, não gostaria que o momento da sua morte fosse a última lembrança dela. O senhor partiu dormindo, confortável, sem dor, e eu acredito, em paz. Que a última memória dela seja um sorriso um tanto tímido e um até logo, porque um dia iremos nos reencontrar em outro plano.


Nessa madrugada, senti de longe a morte do primeiro paciente que me escolheu como médica. Lhe agradeço por me ensinar o impacto que uma dipirona pode ter. Lhe agradeço por ter confiado em mim para ajudar no seu cuidado. Eu gostaria de ter feito mais, gostaria de ter conseguido entregar a tempo o Plano de Cuidados tão detalhado que escrevi com tanto cuidado, mas me sinto em paz por saber que o senhor foi cuidado dessa forma mesmo assim. E como sempre digo ao final das minhas cartas: não posso voltar ao passado, mas prometo que tudo que aprendi com o senhor me fará uma médica melhor para cuidar das próximas pessoas que passarem por mim. Guardarei como lembrança o seu sorriso quando lhe defendi diante de tantas recomendações de restrições, dizendo que “sua médica autorizava” tomar seu café com leite e bolacha.


Nessa manhã, antes de seguir para o meu trabalho de ensinar, cuidar e aliviar a dor, como acredito que o senhor gostaria, farei uma oração e depois tomarei um café com leite, lembrando do seu sorriso.

 
 
 

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