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Sobre amar o inútil

  • Foto do escritor: Maria Eduarda Mesquita
    Maria Eduarda Mesquita
  • 22 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura


Meu querido leitor desconhecido, preciso fazer um desabafo: estou cansada de ouvir falar e ler sobre produtividade. Não quero saber as 12 lições que posso aprender com um reality show da Netflix, não quero assistir um vídeo me ensinando a ler mais rápido e nem quero aprender a monetizar meu hobby. Eu quero começar um novo hobby e desistir logo depois. Eu quero poder ser ruim em um hobby que amo, sem culpa, sem comprar um curso pra melhorar, sem medir quantos filmes eu assisti esse ano em comparação com o ano anterior. Esse texto é uma ode a inutilidade.


Quantas pessoas se afastaram da leitura por acharem chato ou tiveram vergonha de não serem cultas o suficiente? Eu leio livros técnicos, já li alguns livros sobre finanças, escrevo textos acadêmicos - mas a vida não é só sobre isso. Eu também gosto do meu momento de leitura como prazer, de ler um best seller divertido e não aprender nada com ele.


Muitas vezes eu me frustrei por não ficar satisfeita com o resultado do meu desenho, e muitas vezes desisti de pegar meus lápis pensando que eu tinha que assistir algumas aulas pra tentar melhorar. Muitas vezes eu pensei que se eu tivesse um único hobby em vez de múltiplos interesses eu seria bem melhor nele, já que poderia me dedicar exclusivamente. Até que entendi que não era sobre isso. Não era sobre o resultado, era sobre viver o prazer do caminho, mesmo que eu sequer complete o percurso.


Agora, comprei um livro de colorir numerado, em que eu não preciso gastar energia pensando em quais cores combinam bem juntas (sim, já desisti de livros de colorir antes porque gastava muito tempo analisando como fazer a melhor pintura). Eu posso apenas sentar pra pintar sem pensar, sem me esforçar, acompanhada de um jogo que - adivinhe só, querido leitor desconhecido - também não serve pra nada.


Parando pra pensar, é muito estranho que pareça quase errado ter um momento de lazer, de ócio, um momento não produtivo. Com frequência, vejo discussões sobre "pra que serve a arte", com alguns reclamando da inutilidade e outros argumentando com longas explicações sobre saúde mental ou benefícios cognitivos. Parece que é proibido amar o inútil.


Nessas horas, fazendo um paralelo talvez distante, eu me preocupo muito com o quanto isso se reflete na nossa visão do valor do ser humano. No meio de tanta pressão sobre produtividade, qual valor das pessoas "inúteis"? Qual valor das pessoas com deficiência que não trabalham, qual valor dos idosos acamados que já não falam? Já pararam pra pensar sobre a aposentadoria "por invalidez"? Invalido, aquilo que não tem valor, pois não pode mais produzir.


O que será de nós se não pudermos amar o inútil? O que será de nós se não pudermos amar a nós mesmos em nossos momentos de inutilidade?


Na contramão do mundo, eu escolho amar o inútil. E peço com todo meu coração, meu querido leitor desconhecido, que você também reserve um pouco do seu amor para o inútil.


PS. Se quiserem saber, o jogo se chama "Spirit City - Lofi Sessions" e o livro de colorir é da série "Creative Haven" (Comprei na Amazon)

 
 
 

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