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Sobre ser mestre e o começo de uma jornada

Foto do escritor: Maria Eduarda Mesquita
Maria Eduarda Mesquita
há 23 horas
3 min de leitura

Ontem eu defendi o meu mestrado, e desde então, venho pensando sobre o significado disso na minha vida. E como você bem sabe, querido leitor desconhecido, sou uma apaixonada por palavras, então toda reflexão começa com o sentido das palavras em si.

A palavra mestre vêm do latim “magister” - aquele que ensina - termo formado a partir da palavra “magis” que significa mais ou maior. Eu definitivamente não me sinto maior que ninguém, mas de fato, me sinto mais e maior do que eu mesma era antes. E de fato, sinto que minha responsabilidade é maior (se quiser, insira aqui a frase clichê do filme do homem-aranha).

Outra palavra que me deixou reflexiva foi o termo “defender”. Não apresentamos o mestrado, não fazemos uma prova - defendemos. Segundo dicionário, defender significa proteger ou repelir um ataque. Pensando nisso, acho que defendemos o mestrado porque o conhecimento precisa ser protegido, e justamente pela natureza da ciência, nos abrimos a todos os ataques, perguntas e alegações, para então repelirmos os ataques sem fundamento e crescermos com os golpes justos. Ao final da minha banca, após aprovada, meu orientador me parabenizou e completou com “honre seu titulo de mestre e lembre-se sempre de defender a universidade publica”. Mais uma vez, a palavra defender retorna - nos lembrando que nenhum direito é eterno se não for defendido.

A jornada até aqui foi longa - quase uma odisseia, tema musical que embalou minhas horas a frente do computador e também permeou as metáforas do meu orientador. Com certeza, eu não teria chegado até aqui se não tivesse me defendido de vários monstros: as dificuldades metodológicas, a desmotivação, a exaustão, a sobrecarga… E também não teria chegado até aqui se tantas vezes outros não tivessem me defendido quando não consegui enfrentar sozinha esses desafios. Varias vezes, perdida em águas turbulentas, achei que não chegaria até a sonhada Ítaca, mas fui guiada pelos mestres que vieram antes de mim, que me protegeram e me deram coragem de avançar mais e me fazer acreditar que eu sou maior do que eu enxergo.

E já que essa foi uma jornada carregada de mitologia grega, lhe peço licença, querido leitor, para citar mais uma referência. Rick Riordan, ao ver seu filho com TDAH e dislexia desmotivado com o colégio e com baixa auto estima, resolveu criar uma história para incentivar seu filho a ler e acreditar que ele também poderia ser um herói. Dai nasceu Percy Jackson, série de livros sobre semideuses adolescentes e neurodivergentes que descobrem que suas dificuldades são causadas pela falta de adaptação ao mundo humano, mas no ambiente certo, tudo muda - por exemplo, eles tem dislexia porque a mente é adaptada para o grego antigo, então apesar da dificuldade de ler em inglês, eles leem perfeitamente em grego. Esses adolescentes não eram um fracasso, eles só sofriam por estarem em um mundo que não foi feito pra eles.

No meu mestrado, eu defendi o trabalho “Suporte a estudantes autistas durante a graduação em medicina”. Assim como na ficção, defendi que os estudantes autistas podem ter suas dificuldades, mas são capazes de superá-las com auxílio, assim como Odisseu teve auxilio de Atena. E esses alunos não têm apenas déficits, têm também talentos e o potencial inerente a todo ser humano: o de ser um pouco herói na vida de alguém. Eu defendi que cabe a nós criarmos um ambiente onde todos possam crescer, um ambiente adaptado para os ensinar a superar os obstáculos e serem cuidados para aprender a cuidar.

Eu me descobri neurodivergente já depois de formada, e passei pela graduação sem suporte direcionado. Sim, eu consegui mesmo assim, navegando sem bússola, mas hoje sei que poderia ter tido um caminho muito mais leve. E ao defender esse mestrado, ao fazer esse trabalho que desejo que seja uma bússola que oriente o caminho dos estudantes autistas, eu defendo também a minha versão mais jovem, que não conseguia entender porque se perdia tanto e tinha que percorrer um caminho mais longo que os outros.

Ao defender o mestrado, mais do que defender o meu “magis”, eu defendo que todos podem ser mais e maiores também. Defendo alguns podem precisar de barcos diferentes, mas todos podem navegar. E espero honrar o titulo de mestre, sendo uma educadora que protege, orienta e defende.

E por fim, deixo aqui as palavras que escrevi na minha dissertação: dedico esse trabalho para todos os estudantes de medicina, médicos e professores autistas. Vocês me inspiram a continuar estudando, pesquisando e educando para que a diversidade, equidade e inclusão não sejam apenas um mito.



 
 
 

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